A madrugada consome minhas horas
de pensamentos fartos e relutantes, vindo a resgatar de um lugar comum a mim
obras desconhecidas por minha consciência racional e força imagens que poderiam
não ser lembradas a percorrerem uma mente que tenta se ordenar.
Fatos e circunstâncias dançam em
um seguimento limitado. Suas coreografias se combinam e se distorcem entre si,
transformando a cena precisa em algo ilusoriamente contraditório.
Estranho como as reviravoltas de
situações deixam coisas tão complicadas e incrivelmente facilitam outras. Me
intriga como momentos que eram para serem lembrados positivamente vinculam-se a
estigmas de carga negativa. E nesse emaranhado há sempre de saltar um
burburinho expresso de confusão.
Pois bem, acho que esse é um daqueles
momentos em que pode ser dito: “Oi, seja bem-vinda de volta, sua falta foi
sentida, ó cara e ilustre, realidade constante minha”. Uma hora ou outra eu
aprendo a conviver contigo, sem me surpreender, sem me incomodar com os
flagelos restantes das últimas aventuras desordeiras que me há proporcionado.
Por enquanto eu me atenho a
lembrar uma frase de um filósofo, um teólogo, que cruzou as fronteiras da
psicologia e da literatura, Søren Kierkegaard, que aplicou em algum lugar à vida, a saber, que "a vida é
vivida para a frente, mas é compreendida para trás": o mesmo ocorre com a
história de um individuo, bem como com o discurso que a relata. E se não
quisermos compreendê-la assim, estaremos nos condenando não só a ignorá-la para
sempre mas também a vivê-la na contramão de um percurso, transpassado.
Eis que já me encontro delineando
um caminho sobre o meio-fio, perpassando pé por pé em uma corda bamba, olhando
sempre adiante, para ter no mínimo uma vaga noção do trajeto que vou trilhando,
e já evitando direcionar a vista para trás, para não ver apenas a fenda onde
jamais poderei voltar a pisar. Enfim... Ando em ponto de equilíbrio: com os pés
no chão e a cabeça nas nuvens.
(Começo do processo de escrita em 04 de agosto de 2013)