domingo, 2 de fevereiro de 2014

Novamente Impacto

Um ano se passa e os sentimentos revivem: situações passadas, sensações relutantes, algo nela teima em continuar processando a intensidade dessas recordações e acumula-las as novas histórias que já podem ser somadas as suas vidas.
E no passo da poesia, ela diria a ele, sem deslizes, aludindo a Caio Fernando de Abreu: “gostei muito que você tivesse voltado, deu vontade de ficar mais tempo junto, deu vontade de levar essa história até o fim - e eu não tenho a menor ideia do que você pensa a respeito, a gente não conversa sobre isso, só fica fazendo uma linha nada-tem-muita-importância, ou algo assim.”
Venho lhes contar que há um ano e, com exatidão, uma semana e um dia, ela diria que queria ele por perto, pessoalmente, para poder enfim dizer o que trazia consigo, dizer o que ele a havia causado, o que conseguiu. Não se arrependia do sentimentalismo lhe proporcionado. Acreditava que só seria certo e realmente válido se declarar frente a frente, de maneira que poderia fixar seus olhos nos dele. Ela clamaria a coragem que, por favor, não saísse dela, porque se continuasse assim, tudo iria dar certo, suas notas iriam corresponder a sua vontade de se declarar. Afinal, eu sabia, ela não poderia continuar fugindo. E não precisava saber o que passava com ele a respeito desse assunto, apesar de querer, e muito, porém, queria ela saciar logo o seu dever, de falar, de informar, o que se passa consigo, a respeito dele.
Hoje, e a precisão é tanta que me faz perceber que trato o caso exatamente no dia em que completa um ano que ela fez o que queria, talvez não exatamente como o planejado, visto a inexperiência do momento, dos pulsos acelerados, que fizeram os magnânimos discursos esvaírem e sair tudo meio jogado, borrado, sem jeito… Hoje eu já sei o que aconteceu depois e ela percebeu que o tempo passa, o ambiente é outro, as coisas mudam, a história cresce, a vida ensina, sim, ela ainda tem um cotidiano corrido, mas a rotina também é outra e ela conhece mais pessoas, sorri alegremente, dança na chuva, sente com veemência, tem novas experiências e sabe habilmente que detrás de redemoinhos de inexatidão há portais e não portas. Entretanto… Impacto, ahh, aquela mesma dádiva certa oferecida pela circunstâncias. Um ano se passa e os sentimentos revivem: situações passadas, sensações relutantes, algo nela teima em continuar processando a intensidade dessas recordações e acumula-las as novas histórias que já podem ser somadas as suas vidas. Seus caminhos se cruzaram novamente. E ela ainda se vê confusa, perdida diante dele, dos toques que a afagam, dos olhos que os aproximam. Novamente os dois seguem, de mãos atadas, aos sorrisos e no meio de palavras desbaratadas, há ósculos perdidos. Na descontração dos momentos juntos vem a sensação do mundo próprio, só deles, alienados as preocupações cerceadas em congestionamentos ambulantes.
Ao vê-los dessa maneira, surge a leve impressão de um tempo que não chegou a passar e se mostra com clareza que a história é realmente preenchida por singelas anacicloses enigmáticas e certeiras.
E eu por fora observo o que os envolvidos não atestam: tomados pelos pulsos acelerados, não se atrevem a entrever em seus olhares fumegantes, de pupilas dilatadas, a imagem infundada perpassada em eventos remotos. Ligados ao passado, entretidos no presente, ambos ainda tem a expressão gélida em detrimento do futuro. Os amantes das fábulas podem se contentar com um “felizes para sempre”, mas os prisioneiros do conto prosseguem trilhando os diversos caminhos que os separam, ou que os esperam. A confusão já não os detém, a incerteza já não os convém. E eu, descritora, ainda lúcida, intrigada, acompanho a saga, e me deleito a contempla-la na escrita… enquanto entender, enquanto não me cansar desse “algo assim”, enquanto for importante, enquanto ainda tentar, eu posso continuar, eu posso aceitar. Mas, e ele? Ainda não terá nada a falar?

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